Elogio da dialética

A injustiça avança hoje a passo firme;
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

Bertolt Brecht


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Transtorno Opositor Desafiante: patologia ou outro estigma inútil para medicalizar mais um comportamento humano?

Alguns vão dizer que é um disparate o que vou dizer, mas enfim é preço que se paga por dizer o que se pensa...
Existem alguns diagnósticos que não consigo compreender e começo cada vez mais a concordar com a antipsiquiatria em vários pontos.
Hoje aqui no Conselho Tutelar descobri que existe o tal "Transtorno Opositor Desafiante" ou "transtorno desafiador opositivo" (detalhes:http://www.acaciapsi.com.br/rebeldes-com-causa/).
Outro dia uma queixa de que o aluno não quer saber dos estudos, somente de ser um jogador de futebol.
Fico pensando se seriam assim diagnosticados os judeus (ou seus filhos) na época do holocausto ou os negros (ou seus filhos) na época da escravidão.
Se não é pela via do direito a segregação por meio da criminalização das condutas das classes vulneráveis que não aceitam se submeter a determinados regramentos questionáveis, ela é realizada por meio da criação de patologias.
Cada vez faz mais sentido o que disse outro dia o delegado Orlando Zaccone que psiquiatras podem ter mais poder que uma autoridade policial em determinados contextos, já que não precisam de tantas formalidades para segregar alguém por uma patologia. A relação médico/paciente também sendo uma relação de poder (eu digo o que você tem, eu determino o que é e o que não é doença).
Lembrei na ocasião de um texto que li recentemente criticando a cultura ocidental de sempre responsabilizar o indivíduo por ser "o pecador", "o doente" ou "o criminoso" e nunca a complexidade do contexto (este sim por vezes patológico, criminoso pecador) a que está submetido.
Infelizmente conhecimentos científicos indispensáveis, como a medicina e o direito, que deveriam contribuir muito mais para a emancipação das pessoas, são constantemente utilizadas mesmo com intuito segregatório dos chamados indesejados. Como se a solução de problemas complexos pudessem sempre ser resolvidos com uma simplificação destoante de qualquer eficácia prática via medicamentalização ou criminalização do comportamento humano.
A principal razão disto penso ser, senão a desonestidade intelectual, ao menos, a ignorância ou a relutância vaidosa de se socorrer de outros conhecimentos, admitindo a transdisciplinaridade como melhor forma de olhar para problemas complexos e suas possíveis causas...