Elogio da dialética

A injustiça avança hoje a passo firme;
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

Bertolt Brecht


sexta-feira, 8 de maio de 2020


Onde está(rá) o interesse público (na "democracia" burguesa)?

- Onde está o interesse público?
Essa era a pergunta provocativa realizada para as partes, num certo processo coletivo, por um magistrado trabalhista. Entendi a intenção do julgador, mas ao mesmo tempo percebi no contato com o real a evidente impossibilidade mas uma vez de conciliar trabalho e capital, preservando o interesse público, principalmente na atual crise econômica.
De um lado, os sindicatos, em geral, (ao menos aqueles em que seus dirigentes ainda menosprezam a teoria e não têm uma visão mais ampla de projeto de país/mundo, limitando-se às especificidades de sua categoria, como infelizmente talhado para funcionar) pensará apenas em princípio no interesse de sua categoria que poderá ser apresentado retoricamente como interesse público.
Do outro lado, o gestor público, no atual sistema econômico em o que lucro está acima da vida também defenderá sua posição como se fosse presumivelmente o interesse público encarnado, mas que numa análise crítica mais atenta e menos ingênua se fará notar interesses outros que não o apresentado, o do capital.
Herdamos da ideologia esta ideia de que o interesse público resultaria da soma de todos os interesses privados e estamos pagando caro o preço por isso.
Não é à toa que os militares voltaram ao poder, pois sempre pensaram mais no todo e de forma mais estratégica que os partidos da redemocratização burguesas, estes limitados à pressão dos lobbys, do corporativismo e das frações do capital como um todo, ou seja, o Estado como um balcão de negócios, como já alertava Marx.
Nessa conjuntura, as instituições também não conseguem responder a estas demandas pois também estão regidas em última instância pela lógica do capital.
E para 99% do povo o que resta? Onde estará o interesse público na democracia burguesa? Democracia burguesa parece um contrassenso, porque a palavra democracia denota um sentido de poder emanando do povo e não de uma elite plutocrata. Como o próprio Delfim Netto afirmou, a democracia morre pelo seu excesso.
Por isso talvez que Marx falava na tal ditadura dos trabalhadores que ao cabo significava não seu desprezo pela democracia, mas baseada na sua análise não idealista que tal conceito devesse ser construído historicamente por aquela classe que é a maior na sociedade atual e vocacionadamente no futuro assumir o poder. devendo, pois, ocupar majoritariamente a gestão do Estado numa fase de transição socialista até chegar numa nova organização política com vistas à emancipação humana: o comunismo.
Enfim, a tal audiência de conciliação não restou exitosa, e tal fato é somente mais uma evidência, dentre tantas outaras, de que no atual sistema econômico o interesse comum não poderá ser encontrado.
Interesse público ou o bem comum talvez só no COMUnismo....