Elogio da dialética

A injustiça avança hoje a passo firme;
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

Bertolt Brecht


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Emancipação humana: um sonho que deve estar sempre vivo como valor existencial e meta histórica

Decidi cursar Direito por ser idealista e querer ajudar de alguma forma a transformar a realidade. Quando me formei em Direito na PUCRS em 2010, saí muito influenciado pelo pensamento dito pós-moderno muito em razão das aulas ministradas pelo brilhante professor Ricardo Aronne que explicava a partir da teoria da teoria do caos, Nietzsche e de outros autores que não existiam fatos, mas apenas interpretações, além do fim das narrativas, certezas, conceitos e a liquidez da modernidade a partir de Zygmunt Bauman.

Entretanto, aos poucos gradativamente fui me convencendo de que estamos ainda na modernidade, em que pese achar fecundo por certos aspectos o pensamento pós-moderno, especialmente a ideia nietzscheana de se retomar o período pré-socrático em que se valorizava também o lado artístico, sentimental, portanto menos racional, além do fornecimento de ferramentas teóricas para desconstruir discursos, essencial na profissão do advogado... 

Um bom argumento que sempre lembro é o utilizado pelo professor Lênio Streck para defender a não existência de grau zero de sentido quando em muitas ocasiões via ele refutar essa ideia do "não existir fatos, apenas interpretações" com o raciocínio inverso: só existem interpretações porque há fatos. 

Percebi então que para compreender o mundo, o próprio Direito, e como efetivar os direitos fundamentais (o idealismo se acentuou quando comecei a trabalhar com direito da criança e do adolescente enxergando com lupa muitas mazelas de nossa sociedade diante das situações cotidianas no Conselho Tutelar), deveria me aprofundar mais, especialmente no tema da economia (sendo este o tema trazido à tona sempre para justificar a não concretização dos direitos mais elementares) e a sociologia (na PUCRS o professor centrou-se em Durkheim, ocultando os Marx e Weber, além dos sociólogos brasileiros, afirmando a discussão seria o quanto o Estado deveria intervir na economia).

Aí que entrou, dentre outros, o pensamento de Marx. Comecei a estudá-lo por intermédio de alguns professor, como Clóvis de Barros Filho (chamou-me a atenção que ele contava da proibição de abordar o referido autor em determinadas instituições privadas em que lecionou), o professor da USP, Alysson Mascaro de Filosofia do Direito, o professor da UFRJ José Paulo Netto e o professor de economia e relações institucionais da UFSC Nildo Ouriques. A partir desses professores vi que há uma infinidade de autores que explicam (e propõe uma radical transformação da) nossa realidade e que são sistematicamente ocultados pela nossa própria educação formal (fruto do tecnicismo que reina desde a ditadura além da influência do Banco Mundial na educação brasileira): Bautista Vidal, Gilberto Vasconcelos, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Theotônio dos Santos, Álvaro Viera Pinto, Guerreiro Ramos, Lima Barreto etc...

Muitos dos referidos autores eram intelectuais pré-golpe de 64 no ISEB (primeira instituição curiosamente fechada pela ditadura militar) que pensavam a necessidade de haver uma revolução no país para se libertar também do colonialismo digamos material (a independência se deu apenas no plano formal).

Em apertada síntese, diferentemente do que o senso comum diz, Marx não foi um teórico do socialismo, mas sim do capitalismo. Nos deixou um legado sobre como funciona a sua lógica e o seu método de leitura da realidade com uma teoria da história (fez dela uma ciência com leis próprias, como a luta de classes que seria o seu motor) a partir da a partir do materialismo histórico dialético (ou como se produz a vida nas relações de produção material), com forte influência hegeliana. A menor parte de sua obra diz respeito ao socialismo/comunismo, até porque ele foi um teórico da atualidade.

Sigo estudando também outras correntes da economia, dentre elas, a de pensamento oposto como a tal escola austríaca de economia, mas que por enquanto não estão sendo capazes de traduzir com a mesma riqueza de detalhes a realidade.

Parece ser mesmo a a lógica do capital que mais ou menos (por haver a tal luta de classes e a tal dialética) rege o que ocorrerá ou não (e talvez nesse sentido escape um pouco das mãos deste pequena elite composta por megacapitalistas no âmbito internacional). 

No Brasil está-se percebendo com o crescimento da intenções (além de algumas manifestações de certos setores de que o resultado da eleição será o menos importante) de voto em Bolsonaro um entrelaçamento entre o fascismo (que está sempre no cio como alertava Brecht) e o ultraliberalismo (que os países centrais pregam para os periféricos mas não praticam por saber que levam vantagem). 

E é interessante que já na década de 60 o economista Theotônio dos Santos publicou um livro (só editado para o português 50 depois) sobre o dilema latino-americano dados os horizontes que se apresentavam: a escolha entre o Socialismo ou o Fascismo. A tese de FHC e Enzo Faletto discordou de tal visão digamos mais mecanicista, afirmando haver espaço para a superação da dependência nos marcos do capitalismo periférico.

Quando FHC afirmou no seu governo que o país havia superado o subdesenvolvimento, sendo agora apenas um país injusto, foi extremamente, para dizer o mínimo, intelectualmente desonesto A tese uspiana sobre a dependência foi a que ganhou predominância na ocasião em detrimento da tese marxista da dependência de Ruy Mauro Marini, André Gunder Frank, Theotonio dos Santos, Vania Bambirra, Orlando Caputo, Roberto Pizarro e outros. Porém, a história parece estar dando razão à tese vencida, bastando ver que o grau de desindustrialização que o país está e o consequente aprofundamento do subdesenvolvimento (tese marxista da dependência).

Infelizmente o fascismo parece ser sim um horizonte para o qual temos que nos preparar por ser uma possibilidade concreta para que os países centrais continuem dominando a economia global e o socialismo ou outro sistema mais justo que o capitalismo, por outro lado como antítese, talvez devessem ser pensados como uma meta histórica, tendo em vista o sonho que nunca se deve deixar morrer: o da emancipação humana.

2 comentários:

  1. Texto muito bem redigido. Ideias claras.
    Posso até não concordar com tudo. Mas acredito que o mundo precisa de pessoas assim, que lutem por seus ideais.
    Parabéns ao autor. Um grande abraço.

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