Elogio da dialética

A injustiça avança hoje a passo firme;
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

Bertolt Brecht


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Uma possível razão para o crescimento dos ideários conservador e regressista.

 
Uma razão, dentre outras, que me ocorreu para a popularização crescente do ideário conservador e até de setores regressistas é uma reação talvez natural das pessoas em acompanhar a velocidade com que o mundo está mudando, na sua liquidez (Zygmunt Bauman), em que quase nada resiste ao tempo e/ou fica registrado na memória.
Nunca como antes, talvez, teorias científicas passaram a ter prazo de validade tão curto (como já advertia Albert Einstein no sentido de que toda a teoria nasce com prazo de validade). Talvez o setor progressista peque na falta de uma reflexão mais aprofundada quando busca mudanças sem a necessária reflexão.
Explico: um exemplo elucidativo é o apresentado por Leandro Karnal no programa Roda Viva no sentido de identificar duas características dos alunos de hoje: possuem uma visão holística, mas não são pacientes ou não estão dispostos o suficiente para refletir. Leem um parágrafo de um texto de Kant, por exemplo, e já concluem que não concordam com o autor.
Talvez esta moda de ser progressista e discordar o tempo todo parece ser também um traço de vaidade para (re)afirmar sua presença no mundo. A consequência é, de outra parte, a resistência - que as pessoas já possuem naturalmente de permanecerem na zona de conforto - às mudanças (algumas até desnecessárias por ausência de uma reflexão mais aprofundada).
Daí o resgate de valores supostamente superados e o crescimento do ideário de ultradireita. Vide o crescente apoio a candidatos identificados com ideologias conservadoras/regressistas, como Donald Trump no EUA e Jair Bolsonaro aqui no Brasil. No pensamento destas pessoas talvez o conservadorismo e o regresso sejam, paradoxalmente, no atual contexto, um progresso.

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